Igreja de Nossa Senhora da Caridade

Património

Mosteiro beneditino feminino fundado em 1510, de que resta a torre manuelina, alguns capitéis do clastro e um portal, deslocado. Do final do século XVI datam ainda o revestimento a azulejos enxaquetados ma igreja e no coro alto e os cadeirais do coro principal.

A igreja foi reconstruida entre 1707 e 1737 em estilo barroco, cuja marca ficou, entre outros, na talha dos retábulos e do púpito, no cadeiral acharoado do coro alto e na decoração, altares e sepulturas da sala do capítulo, hoje sacristia.

Nacionalizado, foi por esta Congregação transformado em lar de idosos desde 1905. Nessa altura a torre foi deslocada destruindo o mirante e construído um equilibrado edifício de traça ecléctica dominada por um gracioso neoclassico.

Espaço de culto católico aberto à comunidade em geral.

horário das missas
Verão
De segunda-feira a sábado: 18h00
Domingos: 10h45
Inverno
De segunda-feira a sábado: 17h00
Domingos: 10h45

A História

Francisco José Carneiro Fernandes (in Cadernos Vianenses — Tomo III)

O Templo é um belo espécime representativo do barroco em Portugal, conservando da traça quinhentista o campanário que encima a esbelta torre gótica renascentista, e a renda de grilhagem do seu lindo portal, envolvidos em construções posteriores, bem como os emblemas do Rei Venturoso que lhe confere carácter manuelino.

A FACHADA em aparato monumental, sendo justamente considerada uma das mais sugestivas da cidade no chamado estilo barroco (a par das frontarias das igrejas de Nossa Senhora da Agonia, Santo António de Viana e Capela das Malheiras).

Lateral, de pórtico gracioso e mais clássico do que aquelas, com aletas e frontão curvilíneo mostrando uma tiara ou mitra e outros emblemas, encimado por profusão de ornatos a engrandecer o baldaquino em que figura a Virgem com o Menino sobrepujado por um coroamento a que as armas reais e os anjos aos lados estabelecem marca D. João V, posto surjam também a esfera armilar e a Cruz de Cristo, símbolos manuelinos. O resto da fachada rematado por um anteparo, vazado como grilhagem, cujos panos de muro se decoram de cartelas com legendas e de singular recorte e cornija a estampar larga folhagem.

A sua TORRE é notável: rematada por um elegante coruchéu, em forma de pirâmide, aparentemente assente em formosa platibanda rendilhada – acrotério e rosáceas de cinzelagem delicada. De patente beleza e originalidade, trata-se de uma joia de arquitetura quinhentista, que bem traduz o apurado gosto do mestre Pero Galego, de Caminha, que tomou à sua conta, em 1510, a construção do edifício do convento. O escudo real de D. Manuel, que se encontrava primitivamente ao pé da sineira meridional, passou para o lado de uma esfera, companheira de armas de D. Pedro II, que vieram do mirante, e sobrepujam agora a primitiva signa régia.

No edifício e dependências anexas merece referência:
O PÓRTICO MANUMENTAL da primitiva capela gótica do Convento de Sant’Ana, quinhentista, apeado no decurso das obras de adaptação do velho mosteiro, que foi transferido e refeito como entrada do horto desta Congregação (a nascente do atual edifício).

Conserva as relíquias da velha capela octogonal: sob a cornija, a fita entrelaçada e as águias com os estigmas das Chagas; no acrotério, a cruz florida, semelhante à Ordem de Aviz, que encimava o grijó. Salienta-se o conjunto a porta gótica, tendo nos rótulos laterais a indicação do ano de 1533, demonstrando que se trabalhava manuelino em pleno reinado de D. João III. Ostenta um vulto de Cristo, ladeado por anjos ajoelhados tocando tubas, provenientes da porta do Capítulo. Admire-se ainda o fecho grande da abóbada em arco de querena, sobrepujado por uma verga trilobada.

O CLAUSTRO, embora alterado e sem a antiga atmosfera monástica, agrada pela largueza e simplicidade. É formado por quatro galerias térreas, de quinze tramos cada, constituídos por em arcos redondos assentes em colunas toscanas.

AS GALERIAS do piso superior, onde se admiram seis formosos nichos incrustados nas paredes, ostentando talha, pinturas e imagens ao gosto barroco, destacando-se o tríptico à entrada do coro alto, pelas representações pictóricas que encerra no anverso.
     

O Interior do Templo

É um dos mais curiosos que nos é dado admirar em construções do género, da primeira fase do barroco, no chamado “estilo nacional”.
Pela profusão de motivos e elementos, o da Caridade, é justamente considerado o mais opulento e aliciante interior da igreja vianense, que sugere a lembrança, não só pela exuberância decorativa como por traça e disposição do templo, da Igreja do Convento da Madre Deus de Xabregas (Lisboa).

Conservando a primitiva feição, é de nave única, revestida de um formoso teto de masseira e pintado, formado por 45 caixotões com motivos de representação bíblica, representando a “Vida de Santa Ana” e a “Infância de Nossa Senhora” (corpo da igreja) e quatro dezenas de painéis menores do que os da nave, puramente decorativos, formando o teto da capela-mor (similares) dos que se vêm na Igreja de S. Bento).

Da imaginária, largamente distribuída pela igreja e dependências, fazem parte boas esculturas de madeira, a mor parte setecentistas, onde a rica policromia se conjuga com o ritmo barroco dos panejamentos, conferindo-lhes um notável vigor estético.

As paredes do templo estão revestidas de azulejos de tapete (azul sobre branco), setecentistas. Na extremidade poente da igreja admire-se os dois coros que ostentam belíssimas talhas barrocas e tetos apainelados.

O subcoro, onde os internados assistem aos atos religiosos, possui um cadeiral de talha da fundação do Convento e pintura fingindo charão, composto de trinta e seis cadeiras, sobre as quais há magnífica talha dourada, seguindo a gramática do barroco nacional, envolvendo pinturas em tela e madeira da época representando passos da vida de Cristo (5). Junto da nave venera-se uma imagem semi-roca do Senhos dos Passos.

(5) Representando: “Bodas de Caná” – transformação da água em vinho”, “S. João Evangelista”, “Assunção de Nossa Senhora”, “Jesus no Horto”, “Jesus a lavar os pés aos Apóstolos”, “Visitação dos Reis Magos”, “Última Ceia de Jesus” ou instituição do Santíssimo Sacramento, “Prisão de Jesus e o beijo de Judas”, Jesus a ser flagelado”, no “Tribunal de Caifás”, ”Jesus em terra depois de açoitado”, “Descida de Jesus da Cruz”, “Enterro de Jesus”, “O Senhor com a Cruz aos ombros a caminho do Monte Calvário”

No coro superior, ressalta o seu teto de castanho antigo, de dezasseis grandes caixotões, sumptuosamente emoldurados com aplicações florais de delicado entalhe. Digno de apreço é igualmente o seu órgão, do tempo das freiras, decorado com pintura a lacre, fingindo charão; bem como o belo retábulo dedicado a S. Martinho, de talha dourada com colunas torsas e pilastras ornadas de motivos vegetalistas, aves e anjinhos, sobre fundo vermelho. Alberga um nicho com fundo florido uma imagem antiga de madeira, do orago, sob a qual se admira um curioso baixo-relevo colorido figurando o presépio. Tem à sua esquerda a primitiva imagem de Nossa Senhora da Caridade, de lindas vestes grená, estofadas, que foi transladada em tempos do nicho onde se venerava no corpo da igreja (ocupado presentemente por uma outra, relativamente recente, em terracota). Ao lado, a jacente de Santa Madalena, assente num sacrário de porta móvel forrado a seda (1737) e decorado com ornatos florais naturalistas.

“A Igreja de Nossa Senhora da Caridade é uma das igrejas mais emblemáticas e ricas de Viana do Castelo.”